Continuando o artigo anterior, vamos ver as outras pinturas de marcações feitas numa pista de pouso e decolagem:

 

Ponto de visada

 

Ponto de que? Acredite: está é uma das marcas mais conhecidas, porém criamos um padrão diferente do recomendado pela ICAO e com isso veio um nome diferente também. Chamamos ela de “marca de mil”, porém seu nome em inglês é “aming point“. Aiming é “mira”, e é exatamente para isso que essa marca serve: é o ponto onde o piloto de mirar o avião durante o pouso.

1

Não se tenta fazer um pouso logo nos primeiros metros da pista, se acontecer qualquer erro ou uma pequena corrente de ar descendente corre-se o risco de pousar fora da pista. Por isso o ponto de visada fica afastado da cabeceira.

 

Porém em pistas curtas essa marcação fica mais próxima da cabeceira, afinal você não vai querer pousar muito para a frente pois haverá pouca pista disponível para a frenagem.

 

O recomendado é o seguinte:

-> Pistas com distância de pouso disponível (LDA) de menos de 800m, o ponto de visada é pintado a 150m da cabeceira;

-> com LDA de 800m a 1199m, 250m

-> com LDA de 1200m a 2399m, 300m (1000 pés)

-> com LDA de 2400m ou maior, 400m

 

Acontece que qual a necessidade de pintar a 400m só porque a pista é enorme? Criou-se um padrão de mesmo nas pistas maiores fazer essa marcação a 300m. Em pistas muito curtas nem mesmo existem essas pinturas ou ficam a 300m mesmo. Como 300 metros são 1000 pés, começou-se a chamar o ponto de visada de “marca de mil”.

A coisa é tão fora de padrão que mesmo na pista 18 do BI que possui uma LDA de cerca de apenas 1000 metros, o ponto de visada está pintado a 360 metros da cabeceira (ele está na verdade a 300m de uma posição antiga da cabeceira, que ainda pode ser vista em imagens de satélite onde a pintura da cabeceira foi apagada).

É aquela estória: quando algo errado é muito dito, acaba se tornando certo, e o mais comum mesmo é chamar o “aiming point” de marca de mil, quando ele existe.

 

Zona de toque

 

Ela começa a 150 metros da cabeceira e é composta por pares ou trios de faixas pintadas dos dois lados do eixo da pista. A quantidade dessas marcas depende do comprimento da pista e elas são pintados também com 150 metros de distância entre elas.

2

Como o nome diz, é a área da pista ideal para o toque das aeronaves em aproximação, e DENTRO dela fica o ponto de visada. Muita gente diz que o pouso perfeito deve ser feito em “cima da marca de mil”. Não, o pouso deve PREFERENCIALMENTE ser feito na zona de toque. O piloto vai levar a aeronave até o ponto de visada e vai fazer o arredondamento. Ele pode arredondar um pouco mais para fazer um pouso mais macio e pousar mais para a frente, pode pegar uma turbulência na final e perder um pouco de altitude, pousando antes dela, ou pode pousar nela. O importante é que se as pinturas da zona de toque acabarem e o toque na pista ainda não tiver ocorrido, pode ser que o que sobrar de pista à frente não seja suficiente para a frenagem, nesse caso o ideal é a arremetida.

 

A zona de toque começa a 150m da cabeceira, o pouso pode ser feito antes desses 150m? Sim, a partir da cabeceira é pista e o toque é permitido, mas não é seguro tentar propositalmente tocar tão no começo da pista.

 

O importante é, obviamente, não pousar antes da pista e também não fazer o toque da aeronave na região de cabeceira deslocada, isso é considerado infração de tráfego aéreo e o operador da aeronave poderá ser multado pela ANAC se por acaso a Torre ver que o piloto fez isso e reportar.

 

Cabeceira deslocada

 

A cabeceira deslocada é sinalizada com setas brancas indicando que a pista está mais a frente, como na imagem a seguir. A faixa transversal indica onde está a cabeceira, consequentemente onde a pista começa.

cabeceira 18 2

cabeceira 18

 

Outra opção para a cabeceira deslocada, nesse caso utilizada quando o deslocamento da cabeceira é temporário (obras na cabeceira original ou acidente na pista por exemplo), é pintar apenas a faixa transversal no local da cabeceira temporária e algumas setas lado a lado logo antes dessa faixa

Untitled-2

Na imagem acima, os “X” antes da cabeceira indicam que aquele pedaço de pista está fechado

Stopway

 

A stopway é pintada com setas amarelas que compreendem toda a sua largura, no exemplo abaixo vemos uma das pistas de Brasília, pois aqui no Afonso Pena nenhuma das duas stopways possui as pinturas.

stopway2

 

Respondendo ao leitor!

Um leitor nos questionou, após divulgarmos o artigo anterior, sobre aeroportos que pintam os números de designação das cabeceiras NO MEIO das marcas de cabeceira, e não 12m à frente como mostramos, e ainda citou como exemplo o aeroporto português de Madeira:

Untitled-1

A ICAO não diz que esse modelo de marcação DEVE ser utilizado em algum caso, trata-se de uma disposição OPCIONAL que pode ser utilizada em pistas de 45m ou mais de largura e que não operem sistemas de pouso por instrumentos, seja de precisão (ILS) ou não. Motivo específico não existe, mas é algo previsto que pode ser utilizado, inclusive nesse caso é recomendado que os números de designação sejam pintados maiores para preencher adequadamente o espaço entre as faixas ao lado!

 

Errata:

No artigo anterior dissemos que a ICAO recomenda que caso haja 4 ou mais pistas paralelas, seja feito somente um “jogo” com as letras L, C e R na designação das cabeceiras, e que alguns aeroportos nesses casos optavam por alterar a designação numérica de algumas cabeceiras para não haver pistas com a mesma designação.

No caso de 4 ou mais pistas paralelas a ICAO recomenda que seja feito apenas um jogo com as letras L, R e C (“L R L R” / “L C R L R” / “L C R L C R”), mas normalmente para evitar confusões com duas pistas 15R por exemplo, alguns aeroportos modificam o número somando ou subtraindo apenas 1 unidade em algumas pistas. Um exemplo com 5 pistas poderia ser 18L 18C 18R 19L 19R, assim todas as pistas ficam com designações diferentes entre si.

De fato em um parágrafo do Anexo 14 diz-se para fazer os jogos de letras, mas há outro parágrafo nesse anexo que prevê que seja feita também a alteração numérica para o próximo designador, um dígito maior. Portanto é algo recomendado pela própria ICAO a alteração numérica, e não uma opção por conta dos próprios países e/ou operadores aeroportuários.