Em um dos artigos anteriores citamos um órgão de tráfego aéreo pouco conhecido: a Rádio. Vamos nos aprofundar um pouco mais no tema?

 

Voltando um pouco na história, e fazendo uma comparação: em 11 de setembro de 2001 os órgãos de controle de tráfego aéreo dos Estados Unidos, que são civis, tiveram alguma dificuldade para se comunicar com os órgãos militares de defesa durante os atentados terroristas devido à diferenças de jargões técnicos e procedimentos.

Se o sistema deles funcionasse como o nosso isso seria um pouco diferente! Aqui temos o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB) puramente militar sendo responsabilidade do Comando da Aeronáutica.

P1060424

Torre Bacacheri

O órgão central do SISCEAB é o DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo). O DECEA gerencia o espaço aéreo brasileiro através de 5 divisões regionais, sendo que uma delas, o 2º, fica aqui em Curitiba na base aérea do Aeroporto de Bacacheri. Essas divisões são os CINDACTAs: Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo. Perceberam que um único CINDACTA faz aquilo que dois órgãos diferentes fazem nos EUA? No Brasil o controle do fluxo de aeronaves civis e militares bem como a defesa de nosso espaço aéreo andam juntas em tempo real!

 

Os CINDACTAS estão na hierarquia acima das TMA (Área de Controle de Terminal), que estão acima das TWR (Torre), que estão acima dos GND (solo).

 

Complicou né? Um exemplo prático: basicamente uma aeronave que pretenda decolar aqui do Afonso Pena para Brasília vai passar o plano de voo na sala AIS, o qual será aprovado e repassado ao piloto com ou sem modificações pelo Solo Curitiba (GND). Quando a aeronave estiver pronta para o push-back vai solicitar autorização também para o GND, que vai autorizar a aeronave e detalhar o seu caminho até a pista em uso através das taxiways.

 

-> O controle de solo tem jurisdição sobre as pistas de taxi, fornecendo autorizações para as aeronaves que estão taxiando da pista após o pouso para o pátio ou do pátio para a pista na decolagem. Ele funciona fisicamente na Torre de controle e trabalha com contato visual com as aeronaves, ou posições reportadas pelas aeronaves caso as condições meteorológicas não permitam o contato visual. Existem radares de solo que auxiliam nesse trabalho também, esse equipamento foi recentemente instalado no Afonso Pena para a utilização sob condições meteorológicas CAT III.

IMG_2598

Radar de solo

 

Quando a aeronave chegar ao ponto de espera da pista em uso chamará a Torre Curitiba (TWR), que após obter autorização dos controladores da Terminal autorizará o ingresso da aeronave na pista e sua decolagem.

IMG_2067

Torre Curitiba, aeroporto Afonso Pena

->A Torre tem jurisdição sobre as aeronaves em aproximação final para o pouso e em fase inicial de subida, bem como sobre qualquer aeronave ou veículo (inclusive da administração do aeroporto) que pretenda adentrar a pista. Os controladores da Torre trabalham com contato visual com as aeronaves ou posições reportadas pelos pilotos quando não há condições visuais.

 

Após nossa aeronave decolar a Torre Curitiba vai transferir ela para nós! A Terminal Curitiba (TMA), cujo indicativo de chamada é “Controle Curitiba” e realiza o chamado “Controle de Aproximação”, daí que vem sua sigla do serviço prestado: APP. O controle de aproximação existe para prover o serviço de controle de tráfego aéreo às aeronaves em procedimentos de aproximação e saída dos aeroportos que estão dentro dos limites desta terminal, mantendo o fluxo de cada um deles seguro e separado quando são dois ou mais aeroportos.

Como curiosidade, o APP Curitiba fica situado fisicamente no piso térreo do prédio do DTCEA-CT, o mesmo prédio onde fica a Torre Curitiba

P1260496

DTCEA: Destacamento de Controle do Espaço Aéreo

-> No controle de aproximação os controladores não tem contato visual com as aeronaves, trabalham em local fechado. Nas terminais com cobertura radar eles podem ver onde as aeronaves estão através da tela do radar, quando não há radar, trabalham baseado em reportes passados pelo pilotos em pontos determinados.

 

Quando a aeronave estiver mais alta e afastada, será transferida para o ACC, Centro de Controle de Área, esse estando fisicamente situado dentro de um CINDACTA. O indicativo de chamada o ACC é “centro”, no caso de todo o ACC que está no CINDACTA 2, é “Centro Curitiba”.

Os ACC possuem várias divisões com frequências diferentes e controladores diferentes responsáveis por estas áreas, e conforme o voo progride a aeronave vai sendo transferida para outra subdivisão no mesmo CINDACTA até chegar ao limite e ser transferido para outro CINDACTA. No nosso exemplo do voo para Brasília, a aeronave em determinado momento será transferida do Centro Curitiba para o Centro Brasília, situado no CINDACTA I.

noticia_2_big

fonte: Aeromagazine

GND, TWR, e TMA são órgãos que prestam o serviço de controle de tráfego aéreo, tendo autonomia para autorizar ou não o que uma aeronave pretende fazer. Além disso prestam o serviço de alerta para notificar todos os órgãos de busca e salvamento quando necessário.

O ACC também presta estes serviços quando dentro das aerovias, se o voo for fora de aerovia estará em espaço aéreo não controlado. Neste caso serão prestadas apenas informações pertinentes ao voo e o serviço de alerta, sendo responsabilidade dos pilotos nessas áreas a separação com outros tráfegos.

 

A Rádio citada no artigo anterior tem a jurisdição no aeroporto em que está situada, e fornece apenas o serviço de informação de voo e de alerta, não autoriza, não nega, não separa tráfegos, não controla o fluxo, apenas informa aos aeronavegantes sobre as condições do aeródromo, condições meteorológicas e tráfegos conhecidos. Em Cascavel por exemplo existe uma rádio e seu indicativo de chamada é “Rádio Cascavel”.

 

Aeroportos com tráfego muito intenso como Guarulhos por exemplo possuem ainda um controle de autorizações de plano de voo para tirar essa responsabilidade do controle de solo, deixando-o livre para dar mais atenção para as aeronaves taxiando e descongestionar as comunicações via rádio!

 

Existem aeroportos no Brasil com Torre civil, mas ainda são subordinadas à uma terminal que salvo raras exceções é militar, respondem ao CINDACTA e ao DECEA.

 

O assunto é um pouco extenso e complicado, mas esperamos que tenha sido clara a explicação!